quarta-feira, 25 de maio de 2022

O amor meu amor

nosso amor è impuro como impuro è a luz e a água

e tudo quanto nasce e vive além do tempo

minhas pernas são água as tuas são luz e dão a volta

ao universo quando se entrelaçam atè se tornarem

deserto e escuro e eu sofro de te abraçar depois de te abraçar para não sofrer

e toco - te para deixares de ter corpo e o meu corpo

nasce quando se extingue no teu para me sufocar

e espreito a tua claridade para me cegar meu sol vertido em lua

minha noite alvorecida


tu bebes - me e eu me converto na tua sede

          meus lábios mordem

          meus dentes beijam

minha pele veste - te e ficas ainda mais despida

pudesse ser tu em tua saudade a minha própria

espera

mas eu deito - me em teu leito quando apenas queria dormir em ti

e sonho - te quando ansiava ser um sonho teu e levito voo de semente

para mim mesmo te plantar menos que flor simples perfume lembrança

de pétala sem chão onde tombar

teus olhos inundando os meus e a minha vida já sem leito vai galgando

margens atè tudo ser mar esse mar que sò há depois do mar

 

Foi par ti

para ti foi para ti que desfolhei a chuva

para ti soltei o perfume da terra

toquei no nada e para ti foi tudo

para ti criei todas as palavras e todas

faltaram no minuto que talhei o sabor do sempre

para ti dei voz às minhas mãos abri os gomos do

 tempo assaltei o mundo e pensei que tudo estava

em nòs nesse doce engano de tudo sermos donos

sem nada termos simplesmente porque era de noite

e não dormíamos eu descia em teu peito para me procurar e antes que a escuridão nos cingisse a cintura

 

Confidência

diz o meu nome pronuncia - o como se as silabas

te queimassem os lábios sopra - o com suavidade

para que o escuro apeteça para que desatem os teus

cabelos para que aconteça porque eu cresço para ti

sou eu dentro de ti que bebo a última gota e te conduzo

a um lugar sem tempo nem contorno porque apenas

para os teus olhos sou gesto e cor e dentro de ti me recolho

ferido exausto dos combates em que a mim próprio me venci

porque a minha mão infatigável procura o interior e o avesso da aparência e na brisa  que a tua boca emana que ria redemoinhos

a minha volta 


já não te contemplo e tu já não estás tímida


visto segmentos do teu corpo virgem das minhas mãos
 

Corpo

o amor brota pelas minhas veias salientes e suculentas

à minha boca áspera de tanto desejar - te

as pontas dos dedos inquietos a fechar no vazio

a querer abrir para envolver os teus seios redondos

tenho a vertigem de cada viagem que ainda não fiz

no teu corpo e das culturas que ainda não aprendi

                           là longe

là longe ardem as pedras no interior dos poços recolhem

os mortos e as pedras là longe ardem a tua lìngua

o rio um poema o tèrmio afinal apenas encaixa os teus gemidos


são de pétalas as tuas ancas e se as desfolho enraízo na tua pele 

como se houvesse um jardim inteiro a florir dentro de ti e fico


a levitar no teu perfume do teu corpo

 

Noites

era uma noite de tempestade maravilhosa

que sò è possível viver quando se è jovem

a poesia saiu a rua vinda de ti em mim

apesar da tempestade paira nas ruas

da cidade chuvosa e ventosa o corpo

encharcado pelas águas da chuva 

quente e frio voando percorrendo


restaurantes vazios ruas desertas espaços ausentes

mesa a mesa pensando em ti neste amor que trago


dentro de mim por ti  amo - te minha esbelta princesa


                             Inverno na alma


tenho a alma desalinhada sem ti estou aqui vestido como pássaro

nos beirais da própria vida là fora o vento a chuva o alto mar

a tempestade em espaços da cidade onde se desfruta bons manjares

e saboreia - se bons vinhos sagrados nèctares  em que o ser sente

o seu amor saboreando gota a gota a ternura do momento a fonte

água da vida reencontrada na poesia respirando o amor na ternura

do desejo pensando em ti amo - te minha esbelta princesa


                         beijos ...
 

Inverno na alma

tenho a alma desalinhada sem ti

estou aqui vestido como  pássaro

nos beirais da própria vida

là fora o vento a chuva

pouco a pouco como uma esteira

a filosofia muito simples um parente vital

uma vida inteira
 

Poemas

escrevo poemas soletrados por ti

escritos no silêncio em silêncio

no meu coração esculpido por ti

dentro de mim em silêncio

uma voz sábia murmura nòs somos

assim enquanto a extensa planície

se enrola devagar voando percorrendo

restaurantes vazios ruas desertas espaços

 ausentes  mesa a mesa pensando em ti

neste amor que trago dentro de mim por ti


amo - te minha esbelta princesa !
 

Versos

são versos já temperados pela transpiração

dos nossos corpos e a minha boca idolatra

o teu pólen atè florir de novo e o teu corpo

repousa baixinho em cetim os frutos se desfazem

na boca

todos os dias se assiste  como se de um milagre

se tratasse ao nascer do dia um cão ladra e o sino da

 igreja toca

e a passagem de um comboio conside com estranha

frequência 


a noite as pedras recolhem ao interior do poço


là longe ardem
 

O beijo

beijo a lua no luar dessa imensidão azul

do céu e uma estrela dentro do meu coração

encontrarás nele  o meu amor por ti

minha esbelta princesa meu universo

minha vida minha essência meu ser

por ti e por mim que eu me detenho 

no amor
 

O teu olhar

o teu olhar inunda - me a visão de cores

o brilho de criança no teu olhar 

e eu renasço para o mundo quanto te abraço

e tu pousas a tua cabeça no meu peito 

sinto - me leve consigo flutuar no cheiro

perfumado do teu corpo como se tivessem

criado a mais pura flor

na tua pele cada pétala a derramar o pólen

que mais ninguém possui e a tua voz è todo

o poema em mim meu amor amo - te !
 

Rosa do deserto

liberta - me da pedra que me come os passos

eu chamo - te pelo teu nome mas quando

 voltaste eu já era eterno

não a rosa do deserto è que è a rosa que è fragrância

rosa  perfeita desolada e vasta como a ronda dos dias

desolados a rosa do deserto do seu càlix  profundo

de amargura inebrio - me e floresço cale atè ao céu
 

Demora

o amor nos condena demoras mesmo

mesmo quando chegas antes porque

não è o tempo que eu te espero 

espero - te antes de haver vida e ès tu

que fazes nascer os dias quando chegas

já não sou senão saudade e as flores

tombam - me dos braços para dar cor

ao chão em que te ergues

perdido o lugar em que te aguardo

sò me resta água no lábio para aplacar


a tua sede envelhecida a palavra como lua

para minha boca e a noite já sem voz se vai


despindo em ti o teu vestido tomba e è uma nuvem

o teu corpo se deita no meu um rio se vai aguando


atè ser mar

 

Sede envelhecida

para aplacar a tua sede envelhecida

a palavra como a lua por minha boca

e a noite já sem voz  se vai despindo

de ti o teu vestido tomba e è uma nuvem

o teu corpo se deita no meu um rio vai

aguando atè ao mar
 

Horas do fim

no mundo que combato morro

no mundo que por que luto nasço


                  horas do fim

morre - se nada quando chega a vez

è sò o solavanco na estrada por onde

já não vamos

morre - se tudo quando não è justo

o momento e não è nunca esse momento

                  identidade


preciso ser um outro para ser eu mesmo

sou grão de rocha

sou pólen sem insecto

sou areia sustentando o sexo das árvores


existo onde me desconheço aguardando


pelo meu passado ansiando a esperança


do futuro  
 

Primeira palavra

aproxima o teu coração e inclina o teu sangue

para que eu recolha os teus inacessíveis fruto

para que prove da tua água e repouse na tua

fronte debruça o teu rosto sobre a terra sem

vestígios prepara o teu ventre para anunciada

visita atè que nos lábios humedeça a primeira  

palavra do teu corpo
 

Espiral


 
no espiral do ventre o feto se explica como o Homem

em si mesmo enrolado para caber no que ainda vai ser

corpo ansiando barco água sonhando colo em si 

mesmo encontrado no espiral do feto o novelo do

 afecto ensaia o seu primeiro infinito

Espelho

esse que em mim envelhece assomou ao espelho

a tentar mostrar que sou eu os outros de mim

fingindo desconhecer a imagem deixaram - me

a sòs perplexo com meu sùbito reflexo a idade

è isto o peso da luz com que nos vemos
 

O amor meu amor

nosso amor è impuro como impuro

è a luz e a água e tudo quanto nasce

e vive além do tempo minhas pernas

são água as tuas são luz  dão a volta

ao universo quando se enlaçam atè se

 tornarem deserto e escuro e eu sofro

de ti abraçar  depois de abraçar - te

para não sofrer e toco - te para deixares

de ter corpo e o meu corpo nasce quando

se extingue no teu e respiro em ti para não


me sufocar e espreito na tua claridade para me cegar

meu sol vertido em lua minha noite alvorecida
 

Sonho

sonho - te quando ansiava ser um sonho teu

e levito voo de semente para em mim mesmo

te plantar menos que flor simples perfume

lembrança de pétala sem chão onde tombar

teus olhos inundados os meus e a minha vida

já sem leito vai galgando margens atè tudo ser mar

esse mar esse mar que sò há depois do mar

tu bebes - me e eu converto - me na tua sede

meus lábios mordem meus dentes beijam

minha pele te veste e ficas mais despida


pudesse ser tu e em tua saudade ser  a minha própria espera

mas eu deito - me no teu  leito quando apenas queria dormir


em ti
 

Companheiros

quero escrever - me  de homens

quero calçar - me de terra

 quero ser estrada marinha

que prossegue depois do último

caminho e quando ficar sem mim

não terei escrito por vòs  irmãos

de um sonho por vòs que não sereis

derrotados deixo a paciência dos rios

a idade dos livros mas não lego mapa

nem bússola porque sempre andei


sobre os meus pès e doeu - me às vezes viver

hei - de inventar um verso que vos faça justiça


por ora basta - me o arco - íris basta - me saber que morreis

demasiado por viverdes de menos mas permaneceis sem preço


companheiros  
 

Idade

idade mente o tempo a idade que tenho

sò se mede por infinitos pois eu não vivo

por extenso fui a vida em relâmpago do

incenso  quando acendi foi nas abreviaturas

do imenso vagas e lume

 

oh vida ! fugitiva companheira

oh vida !

fugitiva companheira eu sinto

que não posso acompanhar - te

por isso nesta hora feiticeira

quisera erguer - te  uma bandeira


e fazer - te parar e abraçar - te tão íntimo e tão fundo

que toda toda a vida apenas de um segundo em mim


entrasse em mim vivesse e que depois viesse o fim

do mundo ou que eu morresse !
 

Glòria

vive dentro de mim um mundo raro

tão vibrante tão profundo que o meu amor

indómito e avaro o oculto raivoso do outro

mundo e nele vivo audaz ardentemente

sentindo consumir - se a sua chama que oscila

e desce e sobe inquieta-mente ouvindo a minha

voz que por mim chama em situações grotescas


que me ferem ou conquistando 

 

Poeta

a construíres sonhos  contraditórios !

tu tens na vida uns ideais burgueses

que não te satisfazem !

poeta tu desejas miséria e reversos

que te façam cantar e amas o conforto

e gostas de jantar !

poeta sempre em luta vã contigo que

sofres de já ser aquilo que não ès que

sofres de não ser aquilo de que queres ser

poeta è já bem grande o teu castigo


è preciso viver !


o que os meus olhos querem

Principie ou Rei com domínios


sinto bem que são vãs para me prenderem

as mãos da vida muito embora imperem


sobre a noção real os meus  declìnios
 

Para ti

foi para ti que desfolhei a chuva

para ti soltei o perfume da terra

toquei o nada e para ti foi tudo

para ti criei todas as palavras

e todas me faltaram no minuto

que talhei o sabor do sempre

para ti dei voz às minhas mãos

abri gomos do tempo

assaltei o mundo e pensei que tudo

estava em nòs nesse doce engano


de tudo sermos donos sem nada termos

simplesmente porque era de noite e não


dormíamos descia em teu peito para me procurar

e antes que a escuridão nos cingisse a cintura

 

Destino

à ternura pouca me vou acostumando

enquanto me adio servente de danos

e enganos vou perdendo morada

na súbita lentidão de um destino

que me vai sendo escasso

conheço a minha morte seu lugar 


esquivo ser acontecer disperso


agora


quem mais


me podereis vencer ?
 

Chuva

chuva a cair mansa na paisagem do momento

trazes mais lembrança de profundo isolamento

chuva a cair em silêncio na tarde sem claridade

hoje a sonhar venci - o uma infinita saudade

chuva a cair tão mansa em branda serenidade

hoje a minha alma descansa que perfeita intimidade

ficamos nos olhos vivendo de um sò amando uma


sò vida
 

Solidão

vaga aroma de esteva ao mesmo tempo ardente

e virgem e este murmúrio doce da folhagem

são o falar do mato na estiagem segredando

os misteriosos da origem calma profunda

doce resignada a vida não è mais do que

o viver da paisagem nostálgica e pasmada 

a solidão tem dedos de veludo de fermentos

 afagos delicados bendita solidão que beijos

tudo que andarão meus sonhos desvairados ?

nestes montados que purificação me invade


a alma !


como entra em mim toda a serenidade dos ermitões

orando na paisagem


 

Sabedoria

nos dias em que nada vale

a pena e em que as árvores

amigas são iguais e estão

vistas a vida è tão parada

e tão serena que afinal já não

há que contar mais e prevejo

com olhos anormais as coisas imprevistas

nos dias em que são cinzentos os meus  céus

o de dentro e o de fora e è vago esta noção

de um velho Deus que não manda embora


deste espectáculo estafado em que de cor sei dizer

o que me foi ensaiado e que todos vão fazer


tenho inveja dos homens convencidos que nem sequer

sonharam que poderia haver paraísos perdidos


ainda não decifraram esta chamada em que andam envolvidos

e pensam que vivendo triunfam da vida em que os que sonham


são vencidos   
 

Humildade

as águas beijei

as nuvens olhei 
às árvores cantei 

na sua beleza

os bichos amei

na sua brutaliza 

na sua pureza de forças sem lei

e porque os amei e os acompanhei


não me senti rei na mãe natureza

Duvida

eu corro atrás da memória de certas

coisas passadas como de um conto

de fadas de uma velha velha história

tão longe do que eu hoje sou que nem

sei quem recorda foi aquele que passou

ou se apenas a sonhou e agora sùbito 

acorda
 

alma

hoje a minha alma descansa

que perfeita intimidade !

tudo quanto sonhei foi perdido

o que sonhei e antes de viver

era perfeito lúcido e divino

tudo o que sonhei foi perdido

nas ondas caprichosas  do destino

que fados em mim mesmo depuseram

razões de ser e de não ser
 

Destruição

exausto fujo às arenas do puro intolerável

os deuses da destruição sentaram - se 

ao meu lado a cidade onde habito

è rica em desastres embora exista a praia

lisa que sonhei
 

Musa

aqui me sentei quieto

com as mãos sobre os joelhos

quieto mudo secreto passivo

como os espelhos

musa

ensina - me o canto imanente

e latente

eu quero ouvir devagar

o teu sùbito falar que me foge

de repente
 

Tempo

tempo de solidão e de incerteza

tempo de medo e tempo de traição

tempo de injustiça e de vileza

tempo de negação tempo de covardia

tempo de ira tempo de mascarada e de

mentira tempo de escravidão tempo de

coniventes sem cadastro tempo de silêncio

 e de mordaça tempo onde o sangue não tem

rasto tempo da ameaça

 

Daria tudo

daria toda uma vida para não provar

desse veneno amargo e assassino

poço de decepção quanto maior

è o amor mais alto è a aranha céu

do qual somos empurrados

saiba que não há fuga escapatória

desse ardidos caminhos cheios de felicidade

e bons entre frestas de desilusão onde o amor

num minuto pode em ódio converter
 

Poesia

se todo o ser ao vento abandonamos

e sem medo nem dò nos destruímos

se morremos em tudo o que sentimos

e podemos cantar è porque estamos nus

em sangue embalado a própria dor em

frente às madrugadas do amor quando

a manhã brilhar  refloriremos e a alma


 possuíra esse esplendor


prometido nas formas que perdemos


aqui depostas enfim a minha imagem


tudo o que è jogo o que è passagem no interior das coisas

canto nu aqui livre sou eu da lua e os jardins os gestos  recebidos


e o túmulo dos gestos pressentidos


aqui sou eu em tudo quanto amei não pelo meu ser

que sò atravessei não pelo meu rumor que sò perdi


 

Aconchego

aconchego do nosso mundo

o meu calor s resume a ti

e o meu mistério se torna nosso amor

as flores perfumam com a tua chegada

e a magia são parte deste momento

o vento traz lembranças e os pensamentos

envolvem - se na saudade o meu destino

è esse calor que não chama mais os teus braços

apenas o meu coração è abraçado pela saudade

dos teus braços e dos beijos que nas noites frias


aquecem as estações passam e levam elas os momentos

inesquecíveis e deixam o tempo misturado os seus quatro


climas de saudade  
 

Liberdade

aqui nesta praia onde não há nenhum  vestígio

de impureza aqui onde há somente ondas a cair

ininterruptamente puro espaço e lúcida unidade

aqui o tempo apaixonadamente encontra a ´própria


liberdade 
 

Navio naufragado

vinha de um mundo sonoro nítido e denso

e agora o mar o aguardo no seu fundo silencioso

e suspenso è um esqueleto branco o capitão

branco como as areias tem duas conchas na mão

tem algas em vez de veias e uma medusa em vez

de coração em seu redor as grutas de mil cores

tomam formas incertas quase ausentes e a cor das águas


toma a cor das flores e os animais são mudos transparentes

e os corpos espalhados nas areias tremem à passagem das sereias


as sereias leves dos cabelos roxos que têm olhos vagos e ausentes

como os olhos de videntes


não pelos incertos atos que vivi mas por tudo de quanto ressoei

 e em  cujo  amor de amor me cicatrizei



 

Lusitânia

os que avançam de frente para o mar

e nele enterram como uma aguda faca

a proa negra dos seus barcos vivem

de pouco pão e  de luar
 

Rosto nu

rosto nu na luz directa rosto suspenso

despido e penetrável

Osmose  lenta boca entreaberta como

se bebesse 

cabeça atenta rosto desfeito

rosto sem recusa onde nada se defende

rosto que se dà na duvida do pedido

rosto que as vozes atravessam

rosto derivando lentamente

pressentindo que as laranjas segredam


rosto abandonado e transparente

 que as negras noites de amor em si


recebem longos rios de frio correm sobre o mar


um silêncio


erguem - se as paisagens e eu toco a solidão


como uma pedra


rosto perdido que amargos ventos de secura


em si mesmo sepultam e que as ondas do mar



purìssimas lamentam
 

Jardins perdidos

jardim em flor jardim de impressão 

transbordante de imagens mas informe

em ti se dissolveu o mundo enorme

carregado de amor e solidão 

a verdura das árvores ardia o vermelho

das rosas transbordava alucinado cada ser

subia num túmulo em que tudo germinava


a luz trazia em si agitação de paraíso

Deus e de Infernos


e os instantes em ti eram eternos de possibilidades


e suspensão


mas cada gesto em ti se quebrou denso de um gesto


mais profundo em si contido


pois trazias em ti sempre suspenso outro jardim 


possível e perdido
 

Escuto

escuto não sei se o que escuto

è silêncio ou Deus

escuto sem saber se estou a ouvir

o ressoar das planícies  do vazio

ou a consciência atenta que nos confins

do Universo me decifra e fita

apenas sei que caminho como quem è olhado

amado e conhecido e por isso em cada gesto


ponho solenidade e risco
 

Deriva

vi as águas os cabos vi as ilhas

e o longo baloiçar dos coqueirais

vi lagunas azuis como safira

rápidas aves furtivos animais

vi prodígios maravilhas

vi mulheres e homens dançando

nus nos areais e ouvi o fundo

das suas falas que nenhum de nòs entendeu

mas vi ferros vi setas vi lanças tambèm oiro

à flor das  das ondas finas e o diverso fulgor


de outros metais vi pérolas conchas corais desertos

fontes trémulas campinas vi o rosto de Eurydice   


das neblinas vi o frescor das coisas naturais sò de ti não


vi sinais


as ordens que levava não cumpri assim contando tudo

quanto vi não sei se errei ou descobri


 

terça-feira, 24 de maio de 2022

tudo quanto sonhei foi perdido

o que sonhei  e antes de viver

era perfeito lúcido e divino

tudo quanto sonhei foi perdido

nas ondas caprichosas do destino

que os fados em mim mesmo

depuseram razões de ser e de não

ser

contrárias nas emoções que dentro

de mim cresceram tumultuosas

carinhosas varias  
 

Dor

passa - se um dia e outro dia

à espera  que passe a dor e 

a dor não passa e porfia

porque trás dia outro dia

que traz a dor ainda maior

porque embora a dor aflita

calasse há muitos seus ais


ainda fundo palpita uma outra dor

que não grita a dor que não dói mais


não ser contrárias nas emoções que dentro

de mim cresceram tumultuosas carinhosas


varias


naqueles seres que fui dentro de um ser

que viveram de mais par eu viver a minha 


vida luminosa e calma se desdobraram

gestos de menino e rudes arredemos


de assassino


foram almas de mais numa sò alma

hoje a minha alma descansa


que perfeita intimidade !

 

 

Poesia

poesia è uma especial forma de expressão

género literário que inspira e encanta

 sublime e belo

we love the tings we love for what they

are ( Robert  Frost )

a poet is before anything  else a person

wo is passionatley in love witn language 


W. H. Auden
 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Eu ensinaste - me

tu ensinaste - me a fazer uma casa

com as mãos e os beijos

eu morei em ti e em ti meus versos

procuram voz e abrigo

e em ti guardei meus fogo e meu desejo

construí a minha casa porém não sei 

das tuas mãos

os meus lábios perderam - se entre palavras

duras e precisas que tornaram a tua boca fria

a minha boca triste como um cemitério de beijos


mas recordo a sede unindo as nossas bocas

mordendo o fruto das manhãs proibidas


quando as nossas mãos surgiam por detrás

de tudo para saudar o vento e vejo o teu


corpo perfumado a erva e os cabelos soltando

revoadas de pássaros que agora se recolhem


quando a noite se move nesta casa de versos

onde guardo o teu nome
 

Houve uma ilha em ti

houve uma ilha que eu conquistei

uma ilha um mar de solidão

tinha um nome a ilha onde  morei

chamava - se essa ilha coração

que saudades do tempo que passei


nenhum desses momentos foi em vão

do teu corpo de ti de ti já não sei


tambèm já não sei da ilha


não sei não


sò sei de mim coberto de raìzes

enterrei os momentos mais felizes


vivo agora na sombra a ilha que amei


já não existe


agora amo o céu quando estou triste

 

O amor meu amor

nosso amor è impuro como impuro è a luz e a água e tudo quanto nasce e vive além do tempo minhas pernas são água as tuas são luz e dão a vol...